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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Pele
Doce.
Salgada.
Suave.
Calejada.
Lisa.
Enrugada.
Clara.
Escura.
Perfeita.
Com cicatrizes.
Com os poros abertos.
Luminosa.
Baça.
Nova.
Velha.
Rede infinita em percursos circulares.
Manto efémero da alma.
Chave de Eros.
24.02.09
Susana Soares
Olhos
Grandes.
Pequenos.
Brilhantes.
Baços.
Vivos.
Mortos.
Com sonhos.
E pesadelos.
E desejos.
E medos.
E ânsias.
E fúrias.
E risos.
E choros.
E luzes.
E sombras.
E sóis.
E luas.
E estrelas.
E caminhos.
Espelho de Eros.
24.02.09
Susana Soares
Odor
A chuva na terra quente.
A lareira acesa.
O bolo no forno.
A japoneira em flor.
A hortelã no campo.
A fruta de Verão.
A frescura de um banho.
O hálito de Eros.
24.02.09
Susana Soares
Sabor
Doce.
Amargo.
Picante.
Insosso.
Salgado.
Acre.
Metálico.
Frio.
Quente.
Exótico.
Inesquecível.
Inexplicável.
O beijo de Eros.
24.02.09
Susana Soares
quarta-feira, 21 de maio de 2008
A sétima onda

Lluvia (Chuva), óleo sobre tela, 1997
Jaime Alberto Franco (Cali, 1963)
Por uma vez decido ceder.
Abandonar-me à chuva que cai. Esquecer a pressa, o desconforto da roupa colada à pele, a humidade entranhada na alma como se fosse mofo.
Abrando o passo, acerto a respiração com o ritmo das gotas que caem.
Paro.
Agora a nuvem sou eu. Sou eu quem chove. É a minha alma que se desfaz em água.
E, pela primeira vez em muito tempo, sinto-me una. Sinto-me EU.
Agora, mais do que nunca, a roupa é um estorvo, os sapatos um absurdo por resolver.
Descalço-me.
Dispo-me.
Sinto a chuva a beijar-me a pele, a escorrer-me pelo corpo, a infiltrar-se insidiosamente em cada poro.
E um desejo de abandono dos sentidos torna-se um imperativo. Já não sou eu quem comanda os meus passos.
Uma sede de mar, de ondas, de marés vivas dentro de mim vão gritando até todo o mundo ser uma massa sonora, um pedido de ajuda impossível de ignorar.
Olho a orla da praia uma última vez. Dirijo agora o meu olhar para o horizonte, a linha cinza e difusa em que o céu e o mar se tocam.
A chuva continua, incessante, como se viesse do princípio do mundo.
É inevitável o meu caminho.
Tão inevitável como a chuva que cai, dolente e lasciva.
Respiro fundo uma última vez e avanço.
A chuva cai, mas já não a sinto.
Misturo-me com o mar.
Já não sinto a água a tocar-me a pele.
Fundimo-nos.
Espero então a sétima onda para ganhar escamas prateadas e poder mergulhar.
Abandonar-me à chuva que cai. Esquecer a pressa, o desconforto da roupa colada à pele, a humidade entranhada na alma como se fosse mofo.
Abrando o passo, acerto a respiração com o ritmo das gotas que caem.
Paro.
Agora a nuvem sou eu. Sou eu quem chove. É a minha alma que se desfaz em água.
E, pela primeira vez em muito tempo, sinto-me una. Sinto-me EU.
Agora, mais do que nunca, a roupa é um estorvo, os sapatos um absurdo por resolver.
Descalço-me.
Dispo-me.
Sinto a chuva a beijar-me a pele, a escorrer-me pelo corpo, a infiltrar-se insidiosamente em cada poro.
E um desejo de abandono dos sentidos torna-se um imperativo. Já não sou eu quem comanda os meus passos.
Uma sede de mar, de ondas, de marés vivas dentro de mim vão gritando até todo o mundo ser uma massa sonora, um pedido de ajuda impossível de ignorar.
Olho a orla da praia uma última vez. Dirijo agora o meu olhar para o horizonte, a linha cinza e difusa em que o céu e o mar se tocam.
A chuva continua, incessante, como se viesse do princípio do mundo.
É inevitável o meu caminho.
Tão inevitável como a chuva que cai, dolente e lasciva.
Respiro fundo uma última vez e avanço.
A chuva cai, mas já não a sinto.
Misturo-me com o mar.
Já não sinto a água a tocar-me a pele.
Fundimo-nos.
Espero então a sétima onda para ganhar escamas prateadas e poder mergulhar.
Susana Soares
21.05.08
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Eros,
Fímbria,
Pele,
voo rasante; identidade; falta de ar
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Júlia
La nuit n’est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l’affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Paul Éluard
Júlia estava finalmente decidida a acabar com tudo. Desde sempre soubera que esse momento teria de chegar. Inevitavelmente. Dolorosamente. Irremediavelmente.
Vida difícil, igual a tantas, igual a nenhuma.
Quem a visse na rua, mulher banal, mas nem por isso desinteressante, não suspeitaria da vertigem que se apossava de Júlia quando atravessava a estrada por onde passavam os camiões dos homens que a assobiavam. Ou quando se abeirava da varanda para ver os filhos ainda pequenos, já tão grandes, a ir para a escola com mochilas e sonhos maiores que eles. Ou quando subia para a ponte do ferry, com o sol na linha do horizonte e a alma capaz de caber numa casca de noz.
Sim. Decididamente, quem visse Júlia jamais suspeitaria dessa vertigem. Dessa sede de infinito num fim indolor, como o virar de uma página ou um trago de água pura ou uma folha que cai.
E, sim, naquele dia Júlia tinha decidido acabar com tudo.
Nada de muito diferente dos outros dias acontecera. Talvez apenas uma aragem que corresse mais forte, como um convite ao voo. Levantou-se, olhou os filhos que ainda dormiam e beijou-os nos olhos que guardavam as lágrimas que a mãe não sabia chorar. Aconchegou-lhes os lençóis e saiu, pé ante pé, para não os despertar. Fechou-se na casa de banho, rodou a chave por dentro e olhou-se longamente ao espelho. Olhava pela primeira vez para o seu rosto sem medo do que poderia ver. Despiu-se e assim ficou, nua em frente ao espelho, como se aquela fosse outra. Procurou-se até se encontrar.
E quando se encontrou decidiu que era o momento.
Então, pela primeira vez em muito tempo, deixou de lutar contra a vertigem. Uma sensação de plenitude apoderou-se de cada poro da sua pele e Júlia abandonou-se.
Foi então que as lágrimas começaram a cair dos olhos de Júlia, pelo rosto de Júlia, pelo corpo de Júlia.
Ela tinha conseguido acabar com o Silêncio.
Agora, finalmente, tudo iria acabar.
E ela podia começar a Viver.
Susana Soares
(20.02.2008)
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l’affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Paul Éluard
Júlia estava finalmente decidida a acabar com tudo. Desde sempre soubera que esse momento teria de chegar. Inevitavelmente. Dolorosamente. Irremediavelmente.
Vida difícil, igual a tantas, igual a nenhuma.
Quem a visse na rua, mulher banal, mas nem por isso desinteressante, não suspeitaria da vertigem que se apossava de Júlia quando atravessava a estrada por onde passavam os camiões dos homens que a assobiavam. Ou quando se abeirava da varanda para ver os filhos ainda pequenos, já tão grandes, a ir para a escola com mochilas e sonhos maiores que eles. Ou quando subia para a ponte do ferry, com o sol na linha do horizonte e a alma capaz de caber numa casca de noz.
Sim. Decididamente, quem visse Júlia jamais suspeitaria dessa vertigem. Dessa sede de infinito num fim indolor, como o virar de uma página ou um trago de água pura ou uma folha que cai.
E, sim, naquele dia Júlia tinha decidido acabar com tudo.
Nada de muito diferente dos outros dias acontecera. Talvez apenas uma aragem que corresse mais forte, como um convite ao voo. Levantou-se, olhou os filhos que ainda dormiam e beijou-os nos olhos que guardavam as lágrimas que a mãe não sabia chorar. Aconchegou-lhes os lençóis e saiu, pé ante pé, para não os despertar. Fechou-se na casa de banho, rodou a chave por dentro e olhou-se longamente ao espelho. Olhava pela primeira vez para o seu rosto sem medo do que poderia ver. Despiu-se e assim ficou, nua em frente ao espelho, como se aquela fosse outra. Procurou-se até se encontrar.
E quando se encontrou decidiu que era o momento.
Então, pela primeira vez em muito tempo, deixou de lutar contra a vertigem. Uma sensação de plenitude apoderou-se de cada poro da sua pele e Júlia abandonou-se.
Foi então que as lágrimas começaram a cair dos olhos de Júlia, pelo rosto de Júlia, pelo corpo de Júlia.
Ela tinha conseguido acabar com o Silêncio.
Agora, finalmente, tudo iria acabar.
E ela podia começar a Viver.
Susana Soares
(20.02.2008)
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Fímbria,
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voo rasante
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Alice
Por trás do espelho, Alice sorri, convidativa.
Por trás do espelho, diz Alice, é tudo mais verdadeiro.
Por trás do espelho, garante Alice, encontra-se a plenitude.
Por trás do espelho, jura Alice, os morangos sabem a sol.
Por trás do espelho, promete Alice, não verteremos mais lágrimas.
Por trás do espelho, Alice faz caretas.
Ó Alice, por que não dizes a verdade?
Estás só, e estás farta, e os morangos sabem ao mofo das lágrimas que choraste para dentro.
Oh, Alice, como lamento a tua escolha de viveres uma vida asséptica, insípida, sem defeitos de fabrico...
Parte o espelho, Alice!
Rasga a carne, Alice!
Dilacera a alma, Alice!
Grita, Alice!
Anda, Alice, para o lado de cá do espelho!
Susana Soares
24.01.2008
Por trás do espelho, diz Alice, é tudo mais verdadeiro.
Por trás do espelho, garante Alice, encontra-se a plenitude.
Por trás do espelho, jura Alice, os morangos sabem a sol.
Por trás do espelho, promete Alice, não verteremos mais lágrimas.
Por trás do espelho, Alice faz caretas.
Ó Alice, por que não dizes a verdade?
Estás só, e estás farta, e os morangos sabem ao mofo das lágrimas que choraste para dentro.
Oh, Alice, como lamento a tua escolha de viveres uma vida asséptica, insípida, sem defeitos de fabrico...
Parte o espelho, Alice!
Rasga a carne, Alice!
Dilacera a alma, Alice!
Grita, Alice!
Anda, Alice, para o lado de cá do espelho!
Susana Soares
24.01.2008
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Exercício um

Mulher ao espelho, Picasso
Falemos de corpo.
Falemos de Deus.
Mas Deus não tem corpo
E teimam que ele existe.
Eu existo. E tenho corpo.
E não sou Deus.
Para quem tem um Deus
E é branco, Deus branco é.
Para quem é preto,
Deus preto é.
Mas sempre velho.
Mas sempre Homem.
Porque a mulher é a luxúria,
É o pecado, é dar.
Porque ser novo é perigoso,
Lembra a revolução, é forte.
Fizeram Deus
à vossa imagem e semelhança.
Deus odeia o corpo.
E o meu corpo odeia Deus.
Em sonhos sou odalisca,
Coberta com véus,
Para me descobrir.
O meu sexo não é o dos anjos,
Que só são anjos por não terem sexo.
E têm penas.
E têm pena.
Apenas.
Sou mulher.
Com prazer.
Com querer.
E só os anjos,
por não terem sexo,
nos pedem, com pena:
“Não nos deixeis cair em tentação
E livrai-nos do mal”.
Amen.
Susana Soares
2002
Encontro

Fugiste do mar numa noite de chuva
Roubaste as estrelas para te cobrires
A lua, do alto, sorriu-te baixinho
E o vento quente mostrou-te o caminho
Trazias conchinhas na palma da mão
E um raio de sol na tua canção
A rosa-dos-ventos perdeu o Norte
E então o sul trocou com o Oeste
Viciaste os dados da tua sorte
E o sol nasceu porque tu quiseste
Trazias conchinhas na palma da mão
E um raio de sol na tua canção
Quando acordei vi-te a brincar
Com corpo de espuma e riso de mar
E então fui peixe, fui onda, fui lua
Fui fruta de verão caindo madura
Trazias conchinhas na palma da mão
E um raio de sol na tua canção
Dei-te os meus olhos, as asas, o mundo
Descobri o tempo no rio mais fundo
Dancei contigo no meio da rua
E a canção que eu ouvia,
Afinal,
Era a tua.
Susana Soares
2001
Roubaste as estrelas para te cobrires
A lua, do alto, sorriu-te baixinho
E o vento quente mostrou-te o caminho
Trazias conchinhas na palma da mão
E um raio de sol na tua canção
A rosa-dos-ventos perdeu o Norte
E então o sul trocou com o Oeste
Viciaste os dados da tua sorte
E o sol nasceu porque tu quiseste
Trazias conchinhas na palma da mão
E um raio de sol na tua canção
Quando acordei vi-te a brincar
Com corpo de espuma e riso de mar
E então fui peixe, fui onda, fui lua
Fui fruta de verão caindo madura
Trazias conchinhas na palma da mão
E um raio de sol na tua canção
Dei-te os meus olhos, as asas, o mundo
Descobri o tempo no rio mais fundo
Dancei contigo no meio da rua
E a canção que eu ouvia,
Afinal,
Era a tua.
Susana Soares
2001
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