quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Júlia

Magritte's window (1980)
Black and white photograph 102 x 153cm


La nuit n’est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l’affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée


Paul Éluard


Júlia estava finalmente decidida a acabar com tudo. Desde sempre soubera que esse momento teria de chegar. Inevitavelmente. Dolorosamente. Irremediavelmente.
Vida difícil, igual a tantas, igual a nenhuma.
Quem a visse na rua, mulher banal, mas nem por isso desinteressante, não suspeitaria da vertigem que se apossava de Júlia quando atravessava a estrada por onde passavam os camiões dos homens que a assobiavam. Ou quando se abeirava da varanda para ver os filhos ainda pequenos, já tão grandes, a ir para a escola com mochilas e sonhos maiores que eles. Ou quando subia para a ponte do ferry, com o sol na linha do horizonte e a alma capaz de caber numa casca de noz.
Sim. Decididamente, quem visse Júlia jamais suspeitaria dessa vertigem. Dessa sede de infinito num fim indolor, como o virar de uma página ou um trago de água pura ou uma folha que cai.
E, sim, naquele dia Júlia tinha decidido acabar com tudo.
Nada de muito diferente dos outros dias acontecera. Talvez apenas uma aragem que corresse mais forte, como um convite ao voo. Levantou-se, olhou os filhos que ainda dormiam e beijou-os nos olhos que guardavam as lágrimas que a mãe não sabia chorar. Aconchegou-lhes os lençóis e saiu, pé ante pé, para não os despertar. Fechou-se na casa de banho, rodou a chave por dentro e olhou-se longamente ao espelho. Olhava pela primeira vez para o seu rosto sem medo do que poderia ver. Despiu-se e assim ficou, nua em frente ao espelho, como se aquela fosse outra. Procurou-se até se encontrar.
E quando se encontrou decidiu que era o momento.
Então, pela primeira vez em muito tempo, deixou de lutar contra a vertigem. Uma sensação de plenitude apoderou-se de cada poro da sua pele e Júlia abandonou-se.
Foi então que as lágrimas começaram a cair dos olhos de Júlia, pelo rosto de Júlia, pelo corpo de Júlia.
Ela tinha conseguido acabar com o Silêncio.
Agora, finalmente, tudo iria acabar.
E ela podia começar a Viver.

Susana Soares
(20.02.2008)

2 comentários:

Cristina Tomé disse...

Ainda bem que Júlia se encontrou no meio do caminho e não no fim... Ainda bem que Júlia correu a tempo de se libertar das amarras que a prendiam e se soube libertar da vertigem que há tanto a atormentava... Ainda bem que ao abeirar-se da realidade decidiu viver... finalmente em paz... e sorriu para o espelho, para ela própria e para o mundo... Ainda bem.
Provado fica que nem tudo o que começa mal, tem de,inevitavelmente, acabar mal. Provado fica que afinal ainda há esperança na humanidade... basta acreditar.
bjos. Está incrível o teu texto!

Anónimo disse...

Estou de acordo com o Richard Bach quando este diz:

"o elo que une a tua verdadeira família não é de sangue, mas de respeito e de alegria pela vida uns dos outros.

Raramente os membros de uma família crescem sob o mesmo tecto".

sorrir à vida quando ela não sorri a nós é difícil... especialmente quando se está sozinho, e é um verdadeiro herói quem o consegue.

beijos

Rita