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quarta-feira, 21 de maio de 2008

A sétima onda


Lluvia (Chuva), óleo sobre tela, 1997

Jaime Alberto Franco (Cali, 1963)


Por uma vez decido ceder.
Abandonar-me à chuva que cai. Esquecer a pressa, o desconforto da roupa colada à pele, a humidade entranhada na alma como se fosse mofo.
Abrando o passo, acerto a respiração com o ritmo das gotas que caem.
Paro.
Agora a nuvem sou eu. Sou eu quem chove. É a minha alma que se desfaz em água.
E, pela primeira vez em muito tempo, sinto-me una. Sinto-me EU.
Agora, mais do que nunca, a roupa é um estorvo, os sapatos um absurdo por resolver.
Descalço-me.
Dispo-me.
Sinto a chuva a beijar-me a pele, a escorrer-me pelo corpo, a infiltrar-se insidiosamente em cada poro.
E um desejo de abandono dos sentidos torna-se um imperativo. Já não sou eu quem comanda os meus passos.
Uma sede de mar, de ondas, de marés vivas dentro de mim vão gritando até todo o mundo ser uma massa sonora, um pedido de ajuda impossível de ignorar.
Olho a orla da praia uma última vez. Dirijo agora o meu olhar para o horizonte, a linha cinza e difusa em que o céu e o mar se tocam.
A chuva continua, incessante, como se viesse do princípio do mundo.
É inevitável o meu caminho.
Tão inevitável como a chuva que cai, dolente e lasciva.
Respiro fundo uma última vez e avanço.
A chuva cai, mas já não a sinto.
Misturo-me com o mar.
Já não sinto a água a tocar-me a pele.
Fundimo-nos.
Espero então a sétima onda para ganhar escamas prateadas e poder mergulhar.


Susana Soares
21.05.08