terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Som

Composition VIII, Wassily Kandinsky


Grave.
Agudo.
Harmonioso.
Estridente.
Melódico.
Dissonante.
Envolvente.
Insuportável.
Ultra.
Infra.
Tudo.
Nada.
O big-bang e o zénite.

A melodia de Eros.


24.02.09
Susana Soares

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Dor de alma


Sim. Tudo seria realmente mais fácil se fosse igual aos demais.
Mas não era.
E tal evidência doía-lhe na carne – na carne, que a alma tê-la-ia perdido há já muito, se alguma vez a tivesse tido, assim vaticinara o Padre Rafael numa eucaristia raivosa de Semana Santa. E a prova disso mesmo é que a alma não lhe doía, e se não lhe doía era porque não existia.
Pelo menos sempre tinha tido esta máxima por verdade. A mãe, mulher prática e pouco dada a transcendências, só se apegava a S. Tomé porque ele sim, era dos dela, ou bem que havia provas ou então nada feito, ver p’ra crer, sim senhora, agora assim, rezar às cegas, hipotecar uma vida inteira à espera de um bem eterno de onde nunca ninguém veio para contar, santa paciência, ainda por cima começava-se a vida já a dever, raios partam aquela treta do pecado original, é bom e basta, e se formos a ver bem de original tem pouco ou nada, ou não tivéssemos nascido todos da mesma maneira, mais grito menos grito. Enfim, fosse por essa ou outra razão, a verdade é que o Padre Rafael nunca lhe tinha perdoado a bolada ao vitral da Nª Senhora que estava por trás do púlpito e desde esse dia tinha o prazer mórbido de lhe falar das crianças desalmadas que mal chegavam ao Juízo Final eram arrancadas dos braços das mães que, pelo desgosto, nunca sairiam do Purgatório na esperança vã de recuperar os seus meninos e acabavam por enlouquecer.
Cláudio cresceu então aterrorizado com o sofrimento que irremediavelmente provocaria à sua mãe por não ter alma. Durante anos vigiou religiosamente o seu quarto, paredes e sombras, na esperança de ver algo de se assemelhasse a uma alma, qual Peter Pan entrado pela janela da Wendy atrás da sua sombra, mas sem sucesso. Nada fazia crer que houvesse uma alma perdida à sua procura. Não via nada, não sentia nada. Nem um bocadinho, nem ao respirar, nem quando ficava muito quietinho na cama, um olho fechado e outro aberto, a ver se a via espreitar atrás do espelho do toucador ou do cortinado amarelo com barquinhos azuis. Nada.
Assim, um dia Cláudio desistiu de esperar.
A custo, aceitou o seu destino de pecador desalmado e aprendeu a resignar-se, a baixar a cabeça e os braços quando passava na rua e era apupado e agredido pelos colegas de escola, jovens que aplicavam a mesma devoção a rezar o Pai-Nosso e a infernizar a vida de Cláudio.
Só, triste e ostracizado, Cláudio ocupava o seu tempo a inventar um mundo onde não houvesse vitrais que se partissem com boladas acidentais, onde as almas não se despegassem dos pés dos meninos que fizessem disparates, onde houvesse um Cérbero raivoso para cada Padre Rafael, que fizesse com todos os dentes das três cabeças a justiça que Cláudio sentia faltar.
Claro que, numa espiral de culpa, cada vez mais Cláudio se afastava dos outros, e cada vez mais os outros temiam Cláudio pela diferença que ele representava.
E foi assim que um dia de manhã Cláudio partiu à procura da sua alma. Mais do que a falta que lhe fazia, preocupava-o a falta que ela faria à mãe no dia do Juízo Final.
Durante anos errou pelo mundo, em ocupações nem sempre dignificantes, mas sempre guiado pelo mesmo propósito – salvar a mãe da loucura e do Purgatório.
Até um dia. O dia em que desistiu.
Deixara-se enfim levar pela corrente.
Costas curvadas, olhos errantes, gestos trémulos, foi assim que Cláudio entrou no armazém onde davam sopas e pão aos indigentes.
Esperou a sua vez na fila, esfregando as mãos para enganar o frio e a dormência, com as vozes disformes ecoando nos seus ouvidos. Ouvia dezenas de conversas cruzadas, algumas com interlocutores reais, outras que esperavam indefinidamente resposta.
Quando finalmente chegou a sua vez, estendeu as mãos para agarrar o que lhe ofereciam e agradeceu, com os olhos rasos de vergonha e desamparo.
Foi sentar-se numa mesa onde estava já um outro homem, sexagenário, que não parava de se queixar do sapato que lhe apertava o pé direito.
Era o Sr. Álvaro. Homem afável, certamente habituado a conhecer novos companheiros de mesa a cada jantar, ignorou o olhar cabisbaixo de Cláudio e falou, quase ininterruptamente, dos males que o achacavam por causa dos diabretes que tinha no sangue e que lhe tinham roubado a vida e um pé.
Cláudio levantou então os olhos da malga de sopa e olhou para debaixo da mesa. O pé que lhe faltava era o direito, precisamente aquele de que se queixava por ter o sapato apertado.
Uma alegria indescritível apoderou-se de Cláudio que, instintivamente, abraçou e beijou o Sr. Álvaro, que não percebia nada do que se estava a passar, mas que percebia que tinha saudades de que o abraçassem assim, tantas quantas Cláudio tinha da sua mãe e do cortinado amarelo com barquinhos azuis do seu quarto ou dos mundos que aí inventava.
O Sr. Álvaro, a quem tinham amputado o pé direito por causa da diabetes, continuava a sentir claramente os joanetes. Fora um alívio saber disso. Se podia haver dor sem pé, também ele podia ter alma mesmo que só lhe doesse a carne.
Afinal sempre havia salvação!


Susana Soares
06.10.08

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Memórias


Ester esquecera tudo. Ou quase tudo. Apenas não o sabia.
Todos os dias se levantava cedo, puxava os lençóis para trás e punha a cama a arejar.
Abria a janela, batia as almofadas para a rua, ajeitava-as e guardava-as meticulosamente no guarda-vestidos, já quase insufladas como balões, fofas e apetecíveis.
Achava curioso a almofada do marido nunca estar tão marcada como a sua. Enfim, sempre tivera um sono pesado, muito mais do que Carlos, que mal raiava o dia já estava de pé, a vestir-se de costas para a cama, vestígios da educação e do pudor que sempre tivera.
Vestia-se, tomava o café à janela, olhando o Tejo que se estendia ao longe, enquanto ia trincando uns biscoitos de canela (os seus favoritos e que Ester fazia tão bem).
Pegava então no casaco e voltava ao quarto, beijava Ester na testa e saía pé ante pé para não a acordar, sem se aperceber do breve sorriso que aflorava os lábios adormecidos de Ester.
Enquanto descia as escadas, Carlos acendia um cigarro e dispunha-se a começar o dia. Entrava então na rua, desaparecendo na multidão.
Quando Ester acordava já Carlos não estava. Viria à noite, quando acabasse o serviço, quantas vezes já depois de Ester se deitar, mas nunca sem antes deixar o jantar guardado no forno, embrulhado em jornal, a mesa posta, o copo e a garrafa de vinho eternamente encetada em cima da mesa.
Esticava os vincos da toalha com um esmero quase obsessivo, impregnado de uma mescla de saudade terna e solidão resignada, acertava a posição dos talheres e do prato para não descentrar dos cestinhos de fruta bordados na toalha, escondia aquela maldita queimadela de cigarro com a base do copo e olhava, embevecida, para a perfeição da sua obra, a perfeição do seu amor.
Não tardaria que Carlos chegasse, e assim que sentisse a chave na porta poderia adormecer profundamente. Tudo estaria bem.

De manhã, depois dos lençóis puxados para trás, da janela aberta e das almofadas batidas, Ester abria o guarda-vestidos, pousava as almofadas e demorava-se então em frente ao espelho embutido na parte de dentro da porta, já com uma ou outra manchas de ferrugem a acusar a idade do móvel. Ajeitava os caracóis arduamente conseguidos graças aos rolos da menina Isabel que, enquanto segurava entre-dentes os alfinetes com cabeça de plástico colorida que prendiam as mechas de cabelo aos rolos, ia contando histórias e casos da vida do bairro, nunca sem deixar sair um ou outro “eu cá sempre achei estranho”, ou “eu sempre disse”, ou um profético “cada um sabe de si, e Deus sabe de todos”.
Quando ouvia esta tirada, Ester mordia-se sempre para não responder “olha que eu cá nem sempre sei de mim, e cheira-me que Deus também não!”. Mas não dizia nada. Limitava-se a abanar o leque com mais afinco.
Ester ansiava sempre pelo momento do secador, não por ser particularmente agradável mas por ser a única altura em que a menina Isabel falava sem voz, e então Ester divertia-se a ver os lábios da menina Isabel a mexer e a pôr-lhe na boca coisas que ela jamais diria…
Mas isto era no tempo em que Ester achava que valia a pena zangar-se e rir-se.
Agora Ester já não se zangava nem se ria. Apenas suspirava, concentrada nos vincos da sua saia plissada.
É verdade, onde estará a saia? Vou procurá-la, não passa de hoje.
E fechava então a porta do guarda-vestidos que também guardava as almofadas e a imagem de Ester dentro do espelho, também ela já com uma ou outra mancha a acusar a idade.
Dirigia-se então à casa de banho, onde se arranjava e se pintava com o batom vermelho de que nunca se esquecia, porque uma mulher sem pintura é como um esboço de um quadro, e nunca ninguém se importa com um esboço de um quadro, como lhe dissera uma vez Carlos. E Ester amava Carlos.
Disso ela jamais se esqueceria.

Ester voltava à janela, à mesma janela onde tinha batido as almofadas, à mesma janela onde Carlos gostava de tomar o café enquanto contemplava o Tejo e sonhava a vida, e pensava que tinha que fazer mais biscoitos de canela.
Ester nunca se lembrava que tinha latas e latas cheias de biscoitos de canela, nem reparava que a mesa do jantar se mantinha intacta, nem que há muito tempo não ouvia a chave na fechadura.
Ester vivia numa espécie de limbo de que só ela conhecia as coordenadas.
E isso não a perturbava, até porque ela não se apercebia disso. Aliás, dava-lhe uma paz invejável.
Mesmo quando foi para o Lar.
Sobretudo quando foi para o Lar.
Até porque lá lhe compunham os caracóis sem ter que aturar os vaticínios da menina Isabel.
Até porque lá encontrara a sua saia plissada.
Até porque lá tinham muitos espelhos onde ela se podia pintar.
Até lá tinham uma toalha com cestinhos de fruta bordados…
Não tardaria que Carlos chegasse, e assim que sentisse a chave na porta poderia adormecer profundamente. Tudo estaria bem.

Susana Soares
22.05.08

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A sétima onda


Lluvia (Chuva), óleo sobre tela, 1997

Jaime Alberto Franco (Cali, 1963)


Por uma vez decido ceder.
Abandonar-me à chuva que cai. Esquecer a pressa, o desconforto da roupa colada à pele, a humidade entranhada na alma como se fosse mofo.
Abrando o passo, acerto a respiração com o ritmo das gotas que caem.
Paro.
Agora a nuvem sou eu. Sou eu quem chove. É a minha alma que se desfaz em água.
E, pela primeira vez em muito tempo, sinto-me una. Sinto-me EU.
Agora, mais do que nunca, a roupa é um estorvo, os sapatos um absurdo por resolver.
Descalço-me.
Dispo-me.
Sinto a chuva a beijar-me a pele, a escorrer-me pelo corpo, a infiltrar-se insidiosamente em cada poro.
E um desejo de abandono dos sentidos torna-se um imperativo. Já não sou eu quem comanda os meus passos.
Uma sede de mar, de ondas, de marés vivas dentro de mim vão gritando até todo o mundo ser uma massa sonora, um pedido de ajuda impossível de ignorar.
Olho a orla da praia uma última vez. Dirijo agora o meu olhar para o horizonte, a linha cinza e difusa em que o céu e o mar se tocam.
A chuva continua, incessante, como se viesse do princípio do mundo.
É inevitável o meu caminho.
Tão inevitável como a chuva que cai, dolente e lasciva.
Respiro fundo uma última vez e avanço.
A chuva cai, mas já não a sinto.
Misturo-me com o mar.
Já não sinto a água a tocar-me a pele.
Fundimo-nos.
Espero então a sétima onda para ganhar escamas prateadas e poder mergulhar.


Susana Soares
21.05.08

sábado, 19 de abril de 2008

Luz negra

"Mulher sentada a um espelho", de Kirchner


Falta menos de uma hora. Está quase.
Calma, Camila, calma!
Não te serve de nada entrar em pânico. Não te vais esquecer de nada. Lembra-te do que ele te disse. Respira fundo, conta até dez, conta até vinte, conta até te fartares de contar. Olha para o espelho e vamos, mão firme, não podes falhar o risco, não borres a pintura, não há tempo para recomeçar. Uma vez só. Mão segura, anda, aqui não há luxos, és tu que te maquilhas.

Estás velha, Camila, velha e gasta. E não saíste da cepa torta. Que miséria de vida! Saudade do cheiro da terra quente com chuva, de rebolar na relva, de enterrar os pés na areia. Saudades de sentir os olhos a seguir-te quando passavas. Saudades de te sentires bonita. Desejável. Desejada.
Então, Camila, segura as lágrimas, estás parva ou quê? Mão firme, Camila, pinta-te, vá, esquece isso, arruma as ideias, pousa-as em cima da mesa, pendura-as no cabide, guarda-as na gaveta, dobra-as ao pé da roupa e dos sapatos, faz o que quiseres mas livra-te de continuar a pensar nisso. As falas, Camila, não te esqueças das falas. E se te esqueceres não dês parte de fraca, Camila, respira fundo, mexe nos objectos de cena e retoma o discurso.

Credo, este vestido está cada vez mais coçado. Não sei se chega ao final da temporada. Tem de chegar, dê lá por onde der. Tem de chegar. Têm de chegar. O vestido e tu.
Anda, Camila, sai da frente do espelho, já chega! (Até nem ficou mal. Pelo menos, melhor que ontem. Já não é mau.) Costas direitas, Camila, vá. Está quase. Esquece tudo. Esquece a desilusão. Esquece o medo. Esquece a noite. Esquece as rugas. Esquece as mágoas. Esquece a solidão. Esquece que existes. Sobretudo isso. Esquece-te de ti.
E vai.
É agora. Não olhes para trás.

Merda.





Susana Soares
19.04.08


sábado, 12 de abril de 2008

Hiatos


M.C. Escher

E se não for verdade?
Pagar o infantário.
Não, não posso ir aí hoje. Tenho coisas para fazer.
Estou, mãe? Desculpa, não ouvi o telefone. Está tudo bem?
Sim, filho, prometo que da próxima vou.
A carta do adiamento. Não me posso esquecer.
Pagar a casa.
Bolas, o camião não sai da frente e já estou atrasada!
E se ela está a dizer a verdade?
A prestação do carro já deve ter caído.
Sim, um dia destes passo aí, está prometido.
Está tudo bem, sim, e contigo?
Eu sei, filho, mas tenho uma reunião, não posso.
A carta. Ainda não mandei a carta. Não me posso esquecer.
Comprar fraldas.
Aqui posso passar, o semáforo não funciona.
É demasiado escabroso. Será verdade?
Leite. Não há leite em casa.
Tenho que ver quando é que marquei os testes.
Sim, os meninos estão bem.
Combinamos assim, hoje podes adormecer comigo, queres?
Será possível?
O prazo está a acabar e falta quase tudo.
Obras, não faltava mais nada!
O que é que eu faço?
Tanto sono!
Comprar jantar.
Requisitar material.
Amanhã já é sexta. Está quase.
O eco nos meus ouvidos: “preciso de ajuda!”
Já não sei nada.
Sim, mãe, está tudo bem, só estou cansada.
Até logo.

Susana Soares
12.04.08

terça-feira, 18 de março de 2008

Fados


Margarida era uma fatalidade.
Como a chuva numa nuvem demasiado pesada.
Como o arrepio numa pele tocada ao de leve.
Como a curiosidade num gato.

Sempre assim fora. Mesmo antes de nascer.
A mãe de Margarida, Rosa de nome, não tinha grande jeito para a maternidade, e quando soube que estava grávida chorou convulsivamente durante sete dias. Depois fartou-se de chorar e jurou que nunca mais verteria uma lágrima por causa daquela criatura que lhe tinha vindo estragar a vida. Aliás, Rosa decidiu nesse dia que nunca iria ser mãe. Assim, durante os penosos seis meses que se seguiram, nunca mais Rosa se preocupou com aquele ser cada vez menos minúsculo que a ia tentando dominar, ocupando-lhe as entranhas, e despertando sentimentos piegas a quem a rodeava.
Até ao dia em que acordou encharcada entre as pernas e percebeu que a criança ia nascer.
De cócoras ao pé da cama, sem um grito, mordeu as almofadas e fez força até aquela criatura sair.
Era Margarida que resolvera ser gente.
E Rosa, extenuada pelo esforço e pelo desgosto de não poder continuar a ignorar que tinha uma filha, num momento de fraqueza decidiu que a menina que ali estava se chamaria Margarida, como a bisavó. Talvez isso a protegesse dos males do mundo.
Depois recobrou forças, vestiu-se e, enrolando Margarida num lençol, levou-a à mãe e disse-lhe: “Tens aqui a tua neta. Chama-se Margarida, como a tua avó. Pode ser que assim gostes dela o que não gostaste de mim”. Virou costas e saiu.
De casa.
Da frente da mãe, ainda boquiaberta.
Da vida de Margarida.
Não voltou a aparecer.
Ainda escreveu algumas cartas. Sete, ao todo. Em todas dizia que estava bem e que não se preocupassem com ela. Em todas esperava que estivesse tudo bem lá por casa. Em nenhuma falou de Margarida.
Enfim, diriam os que a conheceram que Rosa nunca fora flor que se cheirasse.
Mas deixemos Rosa com os seus espinhos e voltemos a Margarida.
Criança pouco expansiva, desde cedo se revelara uma preocupação para a avó, que, dividida entre um amor genuíno à neta e um sentimento de culpa por uma culpa que não era dela mas que nem por isso a deixava dormir, tentava ser para a neta o que, pelos vistos, não fora para a filha. E tinham desenvolvido, entre elas, uma cumplicidade muda que lhes ia preenchendo os vazios no coração com bocadinhos de bem-querer.
Era frequente ver as duas, em dias de chuva, sentadas em silêncio lado a lado enquanto seguiam com os olhos as gotas grossas que iam escorrendo pelas vidraças da janela, cada uma com as suas gotas, dentro e fora dos olhos, umas e outras convergindo para pequeninos rios até que estes se juntavam num riozinho maior, com força suficiente para não deixar isoladas gotas perdidas, lavando um pouco à sua passagem. Dentro e fora dos olhos. De avó e neta. E depois levantavam-se, mesmo sem se olharem, e iam tratar das suas coisas. Sem uma palavra. Apenas um pouco mais reconfortadas.
Fatalmente, chegou o dia em que Margarida perguntou à avó pela mãe.
Fatalmente, chegou o dia em que a avó de Margarida teve que dizer à neta que não sabia da filha e que isso lhe doía mais do que a morte.
Fatalmente, chegou o dia em que Margarida e a avó choraram agarradas uma à outra, já sem procurar refúgio nas gotas grossas de chuva que iam escorrendo pelas vidraças da janela.
E finalmente chegou a noite em que a avó de Margarida percebeu que a culpa não era dela e adormeceu em paz.
Percebera, finalmente, que tudo fora apenas uma fatalidade.
Como a chuva numa nuvem demasiado pesada.
Como o arrepio numa pele tocada ao de leve.
Como a curiosidade num gato.
Como Margarida.

Susana Soares
18 de Março de 2008